Quando parei de fugir de mim

Ainda aqui

Ainda-aqui

Ainda aqui

Tem dias que a alma pesa,
e o silêncio grita mais alto que qualquer palavra.
Tem noites que eu acordo cedo demais,
e ele, meu filho, ainda não dormiu.
Está lá, no mundo digital,
enquanto eu fico aqui — real, viva,
mas invisível.

Me esforço, me calo, depois transbordo.
Peço ajuda, mas ninguém vê o meu naufrágio.
Ser forte virou hábito,
mas eu queria mesmo era fraquejar em paz,
ser pequena no colo de alguém grande o bastante pra me segurar.

Mereço um colo onde possa dizer:

"Eu também queria ser amada.
Queria que alguém dividisse a conta, a cama, a luta, a vida comigo."

Mas os dias seguem,
e sou só eu —
com a louça na pia,
a marmita fria,
e o coração ardendo.

Falam que eu grito,
mas não sabem que antes disso eu sussurrei.
Pedi com jeitinho, pedi sorrindo,
pedi chorando.
Pedi olhando nos olhos de um menino
que ainda não sabe o quanto é amado,
mas que me fere sem saber.

Queria ter feito tudo certo.
Mas estou cansada.
Cansada de ser mãe, mulher, guerreira e forte o tempo todo.
Queria ser só gente.
Queria que alguém cuidasse de mim também.

Hoje vou ao médico —
mas não é pela pele, pela cicatriz.
É pra ver se alguém olha pra mim
como quem vê uma mulher inteira,
não só uma mãe cansada.

Se um dia você me encontrar,
entenda: eu ainda estou aqui.
Ferida, sim. Mas viva.
E querendo — ainda que em silêncio —
ser amada também.


Nota: Este poema foi escrito em um período de noites difíceis e muito cansaço emocional. Hoje o releio com mais distância, mas mantenho o texto porque ele registra um momento verdadeiro da minha história.

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